Trompetista foi revelação do Bourbon Fest Por Helton Ribeiro / Fotos Daniela Coen
Oito atrações de New Orleans vieram a São Paulo e Rio de Janeiro no 8º Bourbon Street Fest, de 14 a 22 de agosto. Os shows ocorreram no Bourbon Street (São Paulo), no Zozô Bar (Rio) e em três palcos ao ar livre: no parque Garota de Ipanema (Rio), no parque do Ibirapuera e na rua em frente ao Bourbon (ambos em São Paulo).
Revelação do festival, o joven trompetista Shamarr Allen fez no Ibirapuera um show de rock, com um pouco de soul music. Além de composições próprias como a contundente “Sorry ain’t enough no more” (sobre o derramamento de óleo no Golfo do México), fez versões instrumentais de “Smells like a teen spirit”, do Nirvana, e “Beat it”, na qual imitou coreografias de Michael Jackson.
Carismático, Shamarr tocava seu pocket trumpet com uma mão e, com a outra, gesticulava para o público pedindo sua participação. Outras vezes, corria e pulava pelo palco. E não faltou um mosh na plateia.
No Bourbon, com a manha de um veterano, Shamarr começou mais jazzístico e foi gradativamente aumentando a intensidade e o volume. Tocou "What a wonderful world" em ritmo de samba-soul, imitando o vozeirão de Louis Armstrong e puxando uma garota para dancar. Juntou "St. James infirmary'' com "Minnie the moocher", e fez um hip hop em "A night in Tunisia" (com canja de Gary Brown, outra atração do festival).
Terrance Simien, que ganhou o Grammy de zydeco, mostrou que sabe fazer uma festa. Levou ao palco algumas garotas, que testaram sua habilidade no frottoir (uma tábua de lavar roupas metálica usada como percussão). O repertório, que ia de clássicos do gênero como “Zydeco sont pas salé” a outros do rock (“The weight”, de The Band), também agradou em cheio.
A atração mais badalada, o trombonista Troy Andrews (Trombone Shorty), produz com sua banda uma potente massa sonora que lembra outro excelente grupo de New Orleans, o Bonerama. Mas seu estilo é o funk & soul (tocou "Let's get it on", de Marvin Gaye, por exemplo), com arranjos de metais típicos da Louisiana.
O guitarrista Vasti Jackson, do Mississipi, veio com garra. Cheio de poses, fez um blues alto astral, solou passeando pela plateia e até chamou uma mulher para sambar no palco, enquanto o baterista tocava algo parecido com o ritmo brasileiro. Também incorporou música africana ao blues, fez uma "Route 66" jazzística e transformou "Hoochie coochie man" em um blues-rock feroz. Toda essa mistura, por incrível que pareça, não destoou e deu um diferencial à sua música.
O pianista Jon Cleary, um dos mais conceituados em New Orleans atualmente (embora nascido na Inglaterra), está cada vez mais temperando o blues e o rhythm & blues com improvisos jazzísticos. Ele veio em trio com contrabaixo e bateria, e não precisou de mais do que isso para fazer um set diversificado e muito bom.
A cantora Tricia Boutté, num quinteto com sax, piano, contrabaixo e bateria, fez um show de jazz classudo, acrescido de alguns spirituals como “Gospel plow”. Ela também foi a atração do tradicional jazz brunch, no domingo.
Velho conhecido do público que frequenta o Bourbon Street, o saxofonista Gary Brown tem sempre um repertório eclético que agrada a todos os gostos. O público dançou ao som de "Palco", apreciou "Bridge over troubled water" e ficou hipnotizado pelo longo tour de force com "Peter Gunn theme", imortalizada no filme "The Blues Brothers". Seu primo, o guitarrista Kenny Brown, que mora no Brasil, dividiu com ele os holofotes.
O pianista e comediante Bob Jackson fez os shows de abertura no Bourbon. Tocando e cantando clássicos como ''When the saints go marchin' in'' e "Summertime'', ele conseguiu, mesmo sozinho e sentado no piano bar, fazer as pessoas se levantarem e desfilarem pelo salão como num carnaval.
A street band paulista Orleans St. Jazz Band foi outra atração à parte, fazendo apresentações itinerantes pelas duas cidades, em um caminhão palco.
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Publicado em 29/08/10