Big Gilson

Por Ugo Medeiros

    

 

 

 

Você acaba de voltar de uma turnê pela Europa. Qual a diferença dela para as anteriores?

Foi a tour mais importante que fiz até hoje. Foram cinco semanas na Inglaterra, uma na Alemanha e duas na Espanha. Na Inglaterra foi fantástico. Agora tenho um empresário que fez um trabalho pra consolidar o meu nome lá. Meu nome saiu em muitas revistas (página inteira), a crítica falou muito bem e o público adorou. Fui a um programa de rádio da BBC de Londres, de um ex-integrante da banda Manfred Mann, que tem um ibope de 500 mil ouvintes. Devido a isso, os shows lotaram. Pela primeira vez passei a ter uma cobrança, pois o meu nome já estava conhecido.

 

Fez alguma parceria interessante?

Poxa, toquei com o Micky Moody, guitarrista fundador do Whitesnake junto com o Coverdale, e conheci o segundo baterista do Dire Straits, Terry Williams, que agora é dono de um pub no País de Gales. Dei uma canja nesse lugar, num show de um amigo, pra me apresentar ao público galês. Inclusive, ele falou que quando eu voltar marcará uma data para mim... Foi muito bom!

 

Você agora é endorser da Marshall, uma das melhores fábricas de amplificadores. O que isso significa para você?

Fui o primeiro brasileiro (e, se não me engano, sul-americano) a receber apoio da Marshall. Esse amplificador que estou usando foi dado pela empresa na Inglaterra, ao final da tour, pois gostaram muito do meu trabalho. Foi muito legal ver que teve ingleses que mandaram mensagens de apoio e me deram os parabéns.

 

Você ainda sente o preconceito de que brasileiro não é bom bluesman?

Sinceramente, já quebrei esse preconceito lá fora. Infelizmente o Brasil não valoriza seus talentos. Toco fora do país há 12 anos, desde 1995, e a cada vez que toco vai aumentando o público e o reconhecimento. É um trabalho gradual que aos poucos vai se consolidando. Já toquei no Blue Note, em Nova Iorque, cinco vezes, e inclusive tenho um CD gravado na casa. Aqui o pessoal não dá muito valor. Quando recebi o apoio da Marshall e mandei a notícia pela mala direta de e-mails, recebi algumas piadas: “Angus Young também já recebeu; agora apenas falta tocar igual a eles...”. Isso é um absurdo, uma falta de consideração e de respeito! Ainda mandaram e-mail falando que eu não sou bom guitarrista pois não quebro guitarra ou não toco com o dente. Não pode-se querer tocar guitarra em pleno século 21 como em 1960. Se fosse apenas para quebrar a guitarra ou tocar guitarra com o cotovelo, não perderia tanto tempo ensaiando. Mas pelo menos também recebi muito apoio, principalmente de guitarristas. Isso não é uma conquista apenas minha, mas de todos nós do meio da música! Hoje eu abri apenas uma porta, amanhã serão novos músicos que tocarão fora do Brasil.

 

Na sua vida profissional, qual o valor que você atribui ao Big Allanbik?

Muito grande, foi quando comecei como profissional. Até então tocava apenas como amador. Foi quando conheci pessoas do meio e pude me lançar pro mercado do blues. Tivemos grandes momentos, e ainda temos, pois toco com dois ex-integrantes da banda (Ugo Perrota, baixo, e Beto Werther, bateria). Mas todos nós continuamos amigos.

 

Após o término da banda, você partiu para a carreira solo. Qual a grande meta que você traçou num primeiro momento?

Na verdade, eu tinha muita insegurança; não sabia se daria certo. Antes mesmo do término do Big Allanbik, eu e o Alan Ghreen (ex-tecladista da banda) começamos a fazer uma carreira paralela, como duo. Começou de forma despretenciosa e pode-se dizer que até na base da diversão, mas a coisa foi engrenando aos poucos. O Big Allanbik fazia um blues mais contemporâneo, mas meu desejo era fazer algo voltado ao blues raiz. Foi uma brincadeira que aos poucos deu certo: gravamos o primeiro CD de blues acústico do Brasil e depois, nosso segundo CD, gravamos nos Estados Unidos.

 

Após quase vinte anos na estrada, qual a análise que você faz do cenário do blues no Brasil?

É um tanto complicado. São poucos os lugares que abrem espaço para o blues, assim fica difícil viver da música. Por isso tenho minha carreira internacional até hoje. No começo, quando comecei a tocar no exterior foi por auto-afirmação, mas depois foi por necessidade. Na minha visão, o grande problema é a banalização do blues cometido por alguns. Pensam que é um estilo simples, mas não é; é sim muito traiçoeiro. Por exemplo, o Big Allanbik, que era uma banda muito elogiada e era composta por músicos de bom nível, levou oito meses ensaiando quase todo dia. Falta um pouco desse compromisso com a música. Tem alunos meus que com duas ou três semanas de banda formada já vão fazer shows. É um tanto temeroso. Apesar do talento, a pessoa tem que treinar bastante. Porém, nem tudo está perdido: tem aparecido muita gente e banda boa.

 

Quem da nova geração de blueseiros brasileiros você apontaria com maior destaque?

Eu tenho passado muito tempo fora do Brasil. Quem esteja começando agora não sei lhe dizer, mas tem um guitarrista que ainda não teve o seu valor reconhecido: Sun Walk. A banda chama-se Sun Walk and The Dog Brothers, formada por três irmãos. É um grande talento, toca e canta muito, que ainda não estourou no Brasil. Ele faz muito sucesso no interior de São Paulo, perto de Ribeirão Preto (sua cidade). Sem dúvida ele é top.

 

 

 

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Big Gilson

 (foto: Jorge Ronald)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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